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Porque quando estou com ele tudo perde a importância? Tudo cai em segundo plano? Não é certo gostar assim. Mas quando penso em dizer não, o sim já se foi, meu sorriso já está estampado, meu olho já tá brilhando, como criança em manhã de natal, esperando o presente. E esse presente é sua companhia, seus olhos, sorriso, mãos, enfim, eu sinto que preciso ficar esperta, então lhe falo tudo na esperança de que ele tome conta da situação, impeça o envolvimento, corte o laço, já que eu sou incapaz de fazê-lo, e acho que ele me compreende, acaba sendo a razão, mantendo-me gentil em meu lugar, impedindo-me a queda. Como por exemplo, lhe faço demonstrações de amor. É de minha natureza, amar e demonstrar, dizer-lhe com os olhos, boca, mãos. Ele finge que nada acontece. Ou melhor que tudo é muito natural, nem faz demonstrações de apreciação ou de contenção. Apenas fica quieto, desvia o assunto, foca outro ponto de vista, faz vista grossa. E por alguns instantes recobro o juízo, volto à velha temperança, torno-me a companhia perfeita, nem de mais, nem de menos. Até quando? Mas o desejo está aqui. Rondando-me. O tempo todo. Um desejo crescente de estar perto. De sentir-lhe a presença. E isso me assusta e inebria. Uma fome de situações que me coloquem junto dele, corrói a alma, ao mesmo tempo que um festival desconcertante de advertências, conselhos, explicações explode no meu ouvido interno, e eu preciso domar o desejo e recriar o laço, afrouxando-o o mais que posso, até convencer-me de que não há perigo, somos apenas bons amigos.

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